

"Recebemos um chamado no meio da madrugada. Um pit bull que tinha sido derrotado na rinha, agonizava de dor numa lixeira. Ele deu seu último suspiro em meus braços. Chorei e fiz uma oração dizendo que enquanto eu vivesse, cuidaria dos irmãozinhos dele."
Depoimento da Dra. Patrícia Cancellara, fundadora da Pit Cão - grupo que já recolheu mais de 300 pit bulls.
Dramáticos relatos como esse, chegam diariamente na caixa de e-mails da ONG ARCA Brasil e, aos poucos, compõem um triste cenário cada vez mais comum: abandono, maus-tratos e muita crueldade. O pit bull passou a ser grande preocupação da proteção animal, mais do que os tradicionais "vira-latas". O que está acontecendo? A combinação de um mercado antiético, proprietários desinformados e o sensacionalismo da mídia o transformaram em sinônimo de "fera indomável". Um estigma tão forte que o animal que já foi capa de praticamente todas as publicações de cinofilia, hoje amarga o simples fato de ter nascido pit bull. No dia a dia, quem é dono de um animal desse enfrenta caras feias, olhares de recriminação e pessoas mudando de calçadas. Tanta pressão, às vezes, faz com que o dono evite sair e o animal perde um essencial exercício. Mas, como em tantas outras situações, engana-se quem comete pré-julgamentos. "O caráter e a personalidade do cão dependem 20 % da genética e 80 % do ambiente. A maneira como é criado e as experiências sociais moldam seu temperamento e definem sua maneira de agir.", afirma a Dra. Rúbia Burnier, Veterinária Solidária da ARCA Brasil, que há mais de 15 anos pesquisa a agressividade canina. Aos futuros interessados, a Dra. faz recomendações quanto a procedência do filhote, sua linhagem genética, o temperamento dos pais e a idoneidade do canil/criador. "Escolher um cachorro levando em conta apenas o aspecto físico ou porque a raça está na moda é levar um problema para casa."
Além das orientações da profissional, é essencial respeitar o próprio estilo de vida, consultar as pessoas que viverão com o animal, ser capaz de conter o mascote quando necessário, espaço físico mínimo, disponibilidade de tempo para o cachorro, etc. E faça a pergunta mais importante: você pode ter um pit bull? Ainda existem os criadores de "fundo de quintal" que enxergam no desejo da sociedade de ter um animal forte e atlético, a oportunidade de dinheiro fácil. Com um preço abaixo do mercado, não se preocupam com o bem-estar do animal e muito menos para que tipo de pessoa vão vender. Realidade brasileira e as leis dos cerca de 300 animais abrigados no Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), de São Paulo, quase metade é composta por pit bulls e mestiços da raça.
São 125 animais vivendo encarcerados, sozinhos, e o pior, sem grandes perspectivas. " O próprio isolamento faz com que o cachorro apresente um alto nível de estresse.", conta o adestrador Jorge Pereira. São inocentes sonhando com uma promessa de vida diferente daquela a que foram condenados. Há algumas leis específicas que tentam minimizar ou evitar problemas, mas que esbarram na negligência e carecem de fiscalização. Na capital paulista, a lei municipal 14.483/07 determina que todos os animais comercializados ou doados sejam castrados, enquanto que no estado a conhecida "lei da focinheira" 11.531/03 obriga o uso deste acessório em locais públicos para cães das raças: pit bull, mastim napolitano, rottweiler e american staffordshire terrier. No estado do Rio de Janeiro, desde 2005, os cães das raças: pit bull, fila brasileiro, doberman e rottweiler, só podem circular em locais públicos conduzidos por uma pessoa maior de 18 anos, com coleira, guia curta de condução, enforcador e focinheira.
Dois anos depois, as mesmas regras passaram a valer no Rio Grande do Sul. Santa Catarina tem a lei mais rigorosa do país (14.204/2007). Sancionada em 2007, proibi a criação, comercialização e circulação de pit bulls em todo o estado, além de tornar obrigatória a esterilização dos cães com mais de seis meses de vida. Polêmicas a parte, o Brasil parece seguir uma tendência mundial. No Canadá, Austrália e Noruega os pits já foram banidos. No Reino Unido foram proibidos de circular em lugares públicos de acordo com Dangerous Dog Act de 1991. Na Nova Zelândia além do fuso da focinheira, não pode haver publicidade sobre sua venda. Contraponto positivo. Já no CCZ de Guarulhos, uma ação corajosa tenta amenizar como pode as feridas da falta de conscientização. O trabalho de reabilitação nessa cidade é um modelo para o país inteiro. "Já conseguimos doar mais de 30 pits em poucos meses de trabalho. Além da ressocialização e do adestramento, pretendemos capacitar os funcionários e informar a população", explicou o adestrador Vinícius de Almeida que trabalha em pareceria com o CCZ. Tudo indica que esse é o momento decisivo para a raça. Ou os proprietários e admiradores adotam medidas efetivas capazes de transforma essa triste realidade, ou o pit bull estará com os dias contados. É fundamental assumir a própria parcela de responsabilidade: castre seu animal para reduzir o número de crias indesejadas e o abandono de filhotes inocentes, denuncie criadores inescrupulosos, respeite e cumpra as leis em vigor. Esse conjunto de fatores conferiu o estigma de mau que faz com que o pit bull sofra terríveis injustiças no país inteiro. Hoje a raça implora pelo nosso socorro. Você, é capaz de virar as costas?
Vanessa Gonzalez para a revista Anuário de Cães 2010.
Fonte:(Anuário de Cães)


